24 de janeiro de 2011

Ações afirmativas precisam considerar a permanência dos estudantes na instituição, afirmam palestrantes

Docentes, técnicos e alunos de todos os campi do Instituto Federal do Paraná (IFPR) participaram na manhã desta quarta-feira (19) de uma mesa redonda sobre a importância das políticas afirmativas no cenário educacional brasileiro. A atividade fez parte de um seminário sobre o tema. Professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que implantou o sistema de cotas há seis anos, foram os palestrantes. O consenso das discussões foi o de que esse tipo de política não pode estar restrita apenas ao processo de ingresso dos estudantes.

“As instituições precisam estar atentas à permanência dos alunos cotistas, que podem enfrentar diversas dificuldades durante o curso”, defendeu a professora Rosana Sá Brito, ex-pró-reitora de graduação da UFPR. “Por isso é preciso dar a eles condições de permanência ao longo de todo o curso, e não apenas no momento de ingresso”, afirma.

O professor Eduardo Harder, da UFPR Litoral, falou sobre políticas afirmativas para populações indígenas, relatando as experiências vividas pela Universidade. Para ele, além de garantir ingresso e permanência, as instituições precisam estar cientes de que as políticas afirmativas são uma afirmação de direitos e não uma benesse.

“Política afirmativa não é assistencialismo e isso precisa estar bem claro”, salientou. Para o professor, a permanência também se dá pela inclusão e é fortalecida pelo controle social. “O estudante tem o direito de participar de todas as discussões e não pode ser visto como objeto da inclusão, mas como sujeito histórico desse processo, alguém que precisa ter voz ativa”, disse. “Talvez chegar a esse nível de participação seja uma das principais dificuldades das universidades que desenvolvem ações afirmativas”, afirmou, ao explicar que os povos indígenas têm manifestado interesse em participar dos processos de definição de políticas afirmativas.

A inclusão de alunos indígenas também foi abordada pela professora Ana Elise, da UFPR Litoral. Ela falou sobre a complexidade do relacionamento interétnico entre povos indígenas e Estado. “Temos percebido que eles têm preferência pelos cursos da área da Saúde e da Agropecuária, justamente para dar respostas às pressões sofridas pelas grandes cidades, pelo modelo de sociedade industrial, pelo agronegócio; ou seja, a busca por ensino superior é a busca de acessar conhecimento para dar conta dos problemas de relacionamento entre as tribos indígenas e as sociedades que as envolvem territorialmente”, disse.

Um resgate histórico da luta por políticas afirmativas para a população negra foi feito pelo professor Paulo Vinicius B. Silva, do Setor de Educação da UFPR. Ele falou sobre o mito da democracia racial, que consiste na defesa hegemônica da concepção de que não existe racismo no Brasil

“Desde a década de 1940, os movimentos negros brasileiros pleiteiam o reconhecimento do Estado de que existe uma desigualdade social gritante entre brancos e negros; no entanto, só na década de 1990 isso foi reconhecido oficialmente e apenas no início do século XXI as primeiras ações afirmativas começaram a sair do papel”, lembrou

A mesa redonda ainda discutiu a questão da inclusão das pessoas com deficiência. Segundo os relatos dos professores da UFPR, nesse quesito existem duas grandes dificuldades. A primeira é a de preencher todas as vagas ofertadas (a Universidade destina uma vaga a mais em todos os cursos para esses candidatos). A outra barreira é preconceito dentro da própria universidade. “Essas duas dificuldades mostram que, enquanto sociedade, ainda temos muito a avançar; as pessoas com deficiência tem capacidades diferentes e não incapacidades e é isso que todos precisam conhecer”, comentou Rosane Brito.

Segundo a pró-reitora de Ensino, Pesquisa e Pós-Graduação do IFPR, Neusa Nery, o objetivo do seminário é possibilitar a troca de experiências entre os servidores do Instituto e os professores da UFPR.

No Processo Seletivo 2011 do IFPR, 20% das vagas foram reservadas para estudantes de cor preta ou parda; 20% para alunos egressos de escolas públicas; 5% para candidatos indígenas e 5% para candidatos com deficiência.

O seminário continua na tarde desta quarta-feira. A partir das 14h, haverá grupos de trabalho para a discussão do tema.

Serviço:

Seminário sobre Política de Ação Afirmativa
Data: 19 de janeiro de 2011 (quarta-feira)
Hora: Grupos de Trabalho a partir das 14h
Local: Reitoria do IFPR (Rua João Negrão, 1285, Rebouças – Curitiba – PR

Fonte: IFPR

Um comentário:

  1. Interessante.
    Pena estar longe de Curitiba, por enquanto.
    Mal vejo a hora das aulas começarem.

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