23 de agosto de 2009

Solidariedade entre escombros

Doações de alimentos, assessoria jurídica ou o simples apoio moral. Os estudantes que estão acampados no terreno da sede demolida da Upes, em Curitiba, estão recebendo mais ajuda do que esperavam

Vários dos amigos de Cláudia Wasilewski pensaram em fazer a mesma piada. “Você já se integrou ao protesto dos estudantes?”, perguntou um deles à dona de casa de 44 anos. A graça da anedota está nas múltiplas ligações de Cláudia com o movimento estudantil. Vizinha da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (Upes), no Juvevê, em Curitiba, ela reagiu à demolição da sede com o senso de proximidade que se imagina existir em uma ex-militante.

Os estudantes estão acampados entre os escombros desde o último dia 8, para impedir a tomada definitiva do terreno pela empresa que alega ser proprietária do local. Prometem permanecer até a instalação de uma nova sede pré-fabricada. Para ajudar na vigília, Cláudia doou um colchão e passou a fornecer suprimentos ocasionais de café, que no entanto tiveram de ser suspensos em razão da quantidade crescente de novos adeptos. “Mas a garrafa térmica continua lá, emprestada por tempo indefinido.”

Cláudia também passou a oferecer suporte operacional à resistência. Em seu apartamento, os estudantes – os quais ela já chama pelo apelido – podem usar a internet e o telefone. O marido não reclama do entra-e-sai de jovens com a higiene comprometida. Conheceu-a em uma convenção partidária. É, portanto, outro beneficiado pela politização de Cláudia.

“Depois que se ingressa no movimento, nunca mais mexam com a gente”, brada a ex-integrante da União Paranaense dos Estudantes (UPE), coirmã da Upes. “O que aconteceu ali foi um abuso”, diz, referindo-se à ação de uma empreiteira que alega ser proprietária do terreno e cumpriu um mandando de reintegração de posse emitido pela Justiça.

Cláudia não está sozinha no apoio aos estudantes. Nos últimos dias, vários moradores têm contribuído para o sustento dos jovens. “Às vezes eles param o carro, deixam comida e vão embora. Nem sabemos onde moram”, conta Rafael Clabonde, presidente da Upes. Também houve doação de barracas e utensílios de cozinha.

Secretário da Upes entre 1974 e 1975, Luiz Edson Fachin assumiu a defesa dos estudantes gratuitamente. Fachin é um dos advogados mais renomados de Curitiba. Constantemente cotado para assumir uma vaga no Supremo Tri­­bunal de Justiça, cobra até R$ 500 por uma consulta de uma hora. “Atuo de graça neste caso por se tratar da Upes e por acreditar que eles têm razão no episódio”, afirma.

O advogado estuda o caso e prepara um recurso a ser apresentado à Justiça. “A história não pode ser demolida, e a sede é bastante simbólica. Representa tudo o que o movimento secundarista construiu”, diz.

O motivo da ajuda nem sempre se relaciona à causa estudantil. A preocupação do aposentado Francisco Tota, de 74 anos, por exemplo, é a harmonia estética do bairro. Desde que se mudou para o Juvevê, há quatro anos, Tota cuidava gratuitamente do jardim da sede. Porém devido aos últimos acontecimentos, suas bromélias e samambaias foram esmagadas por dois banheiros químicos – doação de um sindicato do setor de construção civil. “Agora estou limpando a frente do terreno, para que não acumule muita sujeira”, conta ele, que prefere não opinar sobre quem tem razão na causa. No entanto deixa transparecer uma esperança convertida em simpatia: “A Upes é uma associação antiga e poderia permanecer aqui. Afinal entre essa rapaziada, muitos podem, no futuro, vir a ser grandes homens no Paraná e no Brasil.”

Reencontro

Quatro estudantes pertencentes à executiva da Upes iniciaram o acampamento no mesmo dia da demolição. Desde então, vêm recebendo visitas e adesões de novos colegas. Segundo Rafael Clabonde, 70 pessoas já passaram pelo local, das quais 40 pernoitaram.

O responsável pelo alerta inicial foi outro vizinho. Às 8 horas do dia da demolição, o estudante universitário Ramon Bentivenha, de 19 anos, foi acordado pelo barulho das marretadas. Procurou então os contatos telefônicos dos anos de ensino médio e informou aos membros da executiva da Upes sobre o que estava acontecendo do outro lado da rua.

Desde que resolveu cursar duas faculdades simultaneamente, Ramon estava afastado do movimento estudantil. Após o ocorrido, entretanto, reserva o pouco tempo livre para ajudar na manutenção do acampamento. Os manifestantes se revezam para jamais deixar o terreno desguarnecido. Além das aulas, que voltaram a frequentar após o fim da suspensão provocada pela gripe suína, eles saem para tomar banho na Casa do Estudante Universitário.

Abrangência

O movimento começa também a atrair estudantes do interior do estado. Bruna Bandeira da Luz, 20, de Pato Branco, recheou a mochila com roupas e embarcou no primeiro ônibus para Curitiba assim que soube do ocorrido. Também há jovens de Cascavel, Foz do Iguaçu, e até da Argentina. Alejandro Kospel, 27, “músico e artista multimídia”, é o mais velho do grupo. Viajante andarilho, veio a Curitiba acompanhando estudantes que conheceu em Toledo, e trouxe na bagagem a experiência em armar barracas e acender fogueiras. “Já morei em uma comunidade ecológica e sei que em conjunto é possível mudar as coisas”, diz.

Entenda o caso

Conheça os fatos que provocaram a disputa pelo terreno que abrigava a sede da Upes:

Origem - A disputa pela posse do terreno situado entre as ruas Marechal Mallet e Manoel Eufrásio, no Juvevê, em Curitiba, começou em 1995. Na época, a então executiva estadual vendeu a área por R$ 7 mil. A atual diretoria reconhece a transação, mas afirma que ela não é válida. “Fizeram um congresso fantasma e alteraram o estatuto, que não permitia a venda do imóvel”, diz Rafael Clabonde, atual presidente da Upes.

Processo - Antes de o comprador tomar posse da área, um grupo de estudantes entrou na Justiça e conseguiu barrar o processo. Porém a sede já havia sido destruída. A diretoria sucessora construiu então uma casa pré-moldada.

Novo capítulo - Em 2005, o comprador inicial vendeu a escritura do terreno a uma empreiteira. No ano passado, esta empresa conseguiu a reintegração de posse. A sentença foi cumprida na manhã do último dia 8 de agosto, e a casa pré-moldada foi removida.

Na Justiça - Desde o confronto com os estudantes, os autos do processo foram recolhidos e estão sendo examinados pela Justiça.

Tradição que começou há 64 anos

A União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (Upes) foi fundada em 1945. É uma das mais antigas associações estudantis do Brasil e ajudou a fundar a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Durante a ditadura militar, que reprimiu fortemente o movimento estudantil, a Upes foi uma das poucas agremiações a permanecer funcionando. O entendimento com o governo é criticado até hoje por alguns ex-integrantes, pois reprimiu a militância política da Upes. Suas principais reivindicações na atualidade são o aumento de vagas em universidades públicas e o passe livre para estudantes nos ônibus coletivos. (OT)

Fonte: Gazeta do Povo

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